Entrevistas

A Ressurreiçaõ do montro [O Globo]

Pobre Marilyn Manson. Era um monstrinho feliz, fazia turnês mundiais, pintava seus quadros, criava polêmica quando queria, contratava e demitia músicos para sua banda, trabalhava em um roteiro para cinema e tinha uma mulher lindíssima, a modelo e pin-up (além de stripper, claro) Dita Von Teese. Um dia, tudo foi por água abaixo: ela pediu o divórcio, e Manson — o autoproclamado Anticristo Superstar, o rei da auto-estima e da arrogância, dono de uma das carreiras mais bem planejadas da música pop recente — perdeu o chão.

— Não tinha ânimo nem para me matar — diz ele, já recuperado, por telefone, de Nova York. — Sou uma pessoa caótica. Minha vida tem um mínimo de organização quando estou gravando ou viajando e fazendo shows. De repente, me vi sem a minha mulher e sem nenhuma dessas duas coisas. Além disso, meu empresário tinha roubado quase tudo que eu tinha, e minha mãe começou a ter problemas mentais. Queriam que eu fosse a um psiquiatra, mas eu não acredito em psiquiatria, então mandava todo mundo se foder. Eu não existia.

A luz no fim do túnel começou a aparecer com o incentivo dos amigos, entre eles o guitarrista sueco Tim Skold (ex-Shotgun Messiah e KMFDM), que toca com Manson desde 2003.

— Eles insistiram para que eu fosse gravar alguma coisa, para dar algum sentido à minha vida — lembra o cantor, nascido Brian Warner em janeiro de 1969. — Quando consegui alugar uma casa, para começar a compor com o Tim, ganhei novamente uma rotina. Passei a maior parte de 2006 tentando compor, sem sucesso. Como desculpa, me afundava no roteiro do meu filme ("Phantasmagoria: the views of Lewis Carrol", em que ele interpretará o autor de "Alice no País das Maravilhas"). Fica para depois da turnê.

"Skold é o parceiro ideal"

● Aos poucos, começou a surgir " Eat me, drink me ", o sexto disco de carreira do grupo que começou com o nome Marilyn Manson & The Spooky Kids, logo reduzido à figura de seu cantor e principal compositor.

— Encontrei o parceiro ideal ao trabalhar com Tim — rasga a seda Manson. — Pela primeira vez não precisei pedir a um guitarrista que fizesse seu instrumento soar triste, ou raivoso. Pelo conteúdo das letras, pelo momento que eu vivia ou simplismente pela minha cara, ele sabia exatamente o que fazer. Os solos de guitarra no disco enriquecem as músicas, não estão lá para preencher espaço. Ele tocou exatamente como eu faria se fosse tão bom quando ele no instrumento.

O disco foi praticamente todo gravado pelos dois. O baterista da banda, Ginger Fish, gravou seu instrumento (nos trechos em que a bateria não é eletrônica), mas não foi creditado.

— Ginger nos ajudou, mas Tim é o herói — diz o chefão. — Eu praticamente não encostei em nenhum instrumento, ele fez tudo. Como ele é europeu, sua maneira de trabalhar é diferente, mais direta, sem frescuras. Muita gente acha que somos uns escrotos, mas funciona muito bem.

A primeira música de trabalho do disco, "Heart-Shaped Glasses (when the heart guides the hand)" tem um indisfarçável sabor pop por trás da voz processada e da letra sinistra, que fala (oh, surpresa) de um relacionamento doentio.

— A intenção era essa, uma letra aterradora com uma música bem pop — diz Manson. — Tim só se tocou do significado da letra quando estávamos mixando a canção. Acho que é uma espécie de prazer culpado que tenho, que me leva a gravar canções dos Eurythmics (o sucesso "Sweet dreams (are made of these)") e do Soft Cell ("Tainted Love"). Estou cantando "What goes around", de Justin Timberlake, nos shows, você sabia?

Show no Rio em setembro

● Bem recebido pela crítica, "Eat me, drink me" já colocou Manson na estrada, e o trará ao Brasil pela segunda vez em setembro, depois de percorrer os EUA com o Slayer. Depois de cantar em São Paulo, em 1997, ele agora virá também ao Rio, no dia 25, na Fundição Progresso.

— Não me lembro muito bem de meu show em São Paulo, eu estava vivendo um estilo de vida decadente na época, mulheres, drogas, rock'n'roll, você sabe — lembra ele. — Não que eu tenha abandonado algo disso, absolutamente.

Ele definitivamente está exalando auto-estima. O namoro com a gatinha Evan Rachel Wood, de 19 anos, atriz de "Aos treze", pode ter algum peso.

— Claro que estou feliz, mas, principalmente, gosto de ser eu mesmo — define ele. — Antes, sentia-me pressionado para ser outra pessoa.

Alguma relação entre o disco "The Golden Age of Grotesque" ("A era de ouro do grotesco"), de 2003, em que ele se ambientava na República de eimar, na Alemanha, algo próximo do que faz Dita em suas apresentações?

— Todo mundo é influenciado por quem está por perto — admite ele. — Mas ela não me forçava a nada, era uma pressão que eu exercia sobre mim mesmo. Mas agora estou livre.

Ele pretende trazer sua produção completa.

— É o show mais teatral da minha carreira. Resume tudo o que já fiz, sem deixar de mostrar quem sou atualmente. ■