Entrevistas

Crepúsculo dos deuses? (Twilight of the Gods?)

No início desse ano, o mundo quase perdeu Marilyn Manson. O Deus da Foda queria morrer. Agora, ele está de volta, com um single, uma coletânia e uma nova fome por caos e destruição.

Os últimos 6 meses da vida de Marilyn Manson foram os mais sombrios pelos quais ele já passou.

Nesse período, ele decidiu desistir da música de vez. Ele decidiu que não queria mais ser Marilyn Manson -- estava cansado de ir aos palcos e constantemente tocar para uma platéia. Ele tinha medo que sua saúde mental houvesse sido arruinada para sempre.

Os processos, a infâmia; a complicação estava indo longe demais. Ainda pior era o medo de que a música não estivesse mais tendo a mesma força. Então, ele decidiu fazer o papel de um molestador de crianças
ao lado de Asia Argento no filme 'The Heart is Deceitful Above All Things', baseado no romance de J.T Leroy. Ele foi ao limite, mantendo seu papel o mais real possível, e sempre saía do set após ter levado socos e com sangue.

Isso tudo levou diretamente para o vídeo mais obscuro de sua carreira -- o da música (s)AIN'T. O vídeo é um espelho do mundo em que estava vivendo, segundo ele, e nada que nele aparece foi inventado. O clipe mostra o cantor cheirando cocaína de cima de uma bíblia, se masturbando, vomitando, se cortando e transando com homens e mulheres. Você não verá o Cat Deeley apresentando o vídeo no "cd:uk"...

Isso o afetou tanto que a sua coletânia 'Lest We Forget' era pra ser seu adeus à música. E o tempo todo ele pensava em cometer suicídio, em pôr um fim a tudo pq ele não agüentava mais. Ele não sabe nem dizer quantas vezes ele quase se matou.

Aparentemente, tudo isso está, agora, atrás dele. Hoje, Manson está no Zeta Bar, ao lado do Park Lane Hilton, em Londres. O bar foi aberto especialmente para ele. Ele está fechado em uma seção do bar, de pernas cruzadas; ele não é tudo que vc imagina.

Ele não é um perigo intimidador para o mundo como já foi descrito. Ao contrário, ele é pequeno e está nervoso. Seus olhos, coloridos por uma vívida lente de contato em seu olho esquerdo e maquiagem preta pesada, olham para baixo e para a direita constantemente. Ocasionalmente, ele te olha nos olhos, com um olhar penetrante. Ele o usa com moderação e aleatoriamente -- não quando ele está sendo particularmente enérgico, mais quando quer te dar uma olhada.

Primeiro, ele manda o absinto que está bebendo de volta para o bar -- está fraco demais -- depois ele dá apertos de mão e espera pelas perguntas. Seus olhos, imaculadamente maquiados, não entregam nada além de, talvez, que ele esteja cansado e quer que isso acabe.


Para alguém que diz ser subversivo e provocativo, uma coletânea parece ser um ato bem tradicional. Por que fazê-lo? Por que agora?

"Tem uma sensação de política e pessoas no ar, no momento, a mesma sensação que houve em 1969. Esse foi o ano em que nasci, e também foi o ano em que tudo mudou. Eu sinto que estamos prestes a ter um desses tempos. A coletânia é uma maneira de descansar as coisas e decidir o que fazer depois, musicalmente. Eu queria lembrar as pessoas de tudo que fiz e pôr tudo numa posição em que pudesse ser visto."

Ela é chamada "Para Que Não Esqueçamos...". Você está preocupado da sua estrela estar minguando, de que as pessoas te esqueçam?

"Nesse momento, parece impossível que as pessoas me esqueçam. Não é que eu sinta que deixei a minha marca, ou que eu gosto de toda essa atenção, mas acho que vc ainda não pode me ignorar. O título é mais por causa do simbolismo. O Lest We Forget é associado a monumentos comemorativos. Ele comemora a luta; comemora 10 anos de luta para chegar onde estou. Eu queria resumir tudo que fiz até agora. Este é o motivo pelo qual fiz um cover de Personal Jesus, essa música embrulha tudo em um pedaço de cultura pop. Ela foi lançada no mesmo ando em que eu comecei a banda e a gravar agora fecha um capítulo e abre um novo. É um adeus ao passado. Quando escolhi as palavras Marilyn e Manson e as coloquei juntas, estava resumindo a cultura pop em duas palavras. Agora, a Personal Jesus diz mais do que EU poderia dizer no momento."


É assim que Manson fala. Cada pergunta é tratada com a maior seriedade; é respondida com uma longa e inteligente resposta -- até mesmo aquelas meramente mundanas. Mas nada é respondido diretamente. Tudo é
tratado como uma teoria. As respostas são imediatas, raramente ele pausa entre o fim da pergunta e o início da resposta, mas cada pergunta é transformada, no momento em que é respondida, em algo que te mantém interessado, antes mesmo da conversa retornar ao que Marilyn Manson quer, de fato, falar sobre. E ele sempre tem
algo a dizer, pois ele é bom no jogo, bom em ser Marilyn Manson, bom em manter-se escondido. Veja...

Você não gosta de se entregar. Por que vc precisa disfarçar sua vida pessoal?

"Eu tento ser aberto na medida que acho que tenho que ser. Nunca é possível inserir toda a sua personalidade em uma entrevista ou em um encontro com alguém. Eu sempre tentei apontar para o mesmo aspecto desde o início: eu sou como todo mundo. A única diferença é que estou mais preparado para mostrar meus defeitos do que a maioria das pessoas. Os defeitos são o que fazem uma pessoa. As pessoas se surpreendem como eu sou normal, e como eu sou igual a todo mundo."

Mas o que ele disse também é verdade. Ele não é o entimidador Deus da Foda na vida real; ele é sano, racional, e muito mais humano do que aparenta ser. Entretanto, seu interesse pelo mundo vem não como um amor pela vida, mas como uma experiência curiosamente observada -- a vida real distorcida através dos olhos de uma lente, ou do piscar da televisão. É impossível, para ele, ver a vida de maneira diferente, já que a razão da existência de Marilyn Manson sempre foi incorporar, subverter e definir a cultura popular. Mas parece que tudo isso vem se tornando um pouco demais para o Manson, ultimamente.

Você apareceu recentemente em dois filmes, "Party Monster" e "The Heart...". Essa é uma maneira de criar diferentes personas, diferentes máscaras, possivelmente porque você está ficando enjoado de ser Marilyn Manson?

"Esta é uma das perguntas que venho me perguntando nesses últimos seis meses. É difícil pôr em palavras tudo que sou. Seis meses atrás, queria acabar com tudo, queria dizer adeus à música, para não ter mais que me envolver com isso."

O que mudou?

"Tive que pensar muito seriamente sobre tudo que tive a chance de alcançar. Tive que me forçar a não acreditar nessas coisas. Tive, também, que decidir não tolerar várias coisas. Nunca fiz coisas que iam de encontro ao jeito que me sentia -- exceto ir pra cadeia -- mas às vezes você é influenciado a fazer mais do que você quer. Às vezes, isso inclui se apresentar na frente de uma platéia. Tinha uma época em que eu não quis mais aparecer na frente de uma platéia nunca mais. É estranho, pois quando comecei não tinha nada a perder, mas agora eu tenho muito a perder."

Como o quê?

"Estou prestes a me casar. Tenho bens materiais dos quais não quero abrir mão. Tenho sucesso; tenho integridade, sanidade e controle. Não quero abrir mão de nenhuma dessas coisas."

Você ainda se importa com o sucesso?

"Eu me importo com ele porque é assim que vc adquire poder como artista. Eu conquistei uma plataforma de onde posso falar."

Então você tem medo de perder sua plataforma?

"Esta é uma das coisas que batalhei pra alcançar. Tenho muito a perder, mas agora isso me faz querer apostar. Isso me faz mais e mais imprudente de uma maneira estranha. Seis meses atrás, queria perder tudo, não ligava mais pra nada; então, resolvi apostar, usei minha chance."

Qual foi essa aposta?

"Continuar com tudo."

Na maior parte desta entrevista, Manson ficou curvado para a frente, ouvindo atentamente e respondendo perguntas em sua fala arrastada. Agora ele está encostado, distante do gravador, e começa a olhar para o teto. Ele cobre seu rosto com sua taça de absinto, com sua cabeça pendurada para trás, seu queixo para o ar em contemplação. Ou apenas, quem sabe, resignação...

Por que fazer essa aposta?

"Acho que é porque eu ainda tenho nojo da humanidade em geral, e mais especificamente de mim mesmo. Mas tb tenho esperanças tanto para a humanidade quanto para mim. Por um tempo, pensei que tivesse conquistado maior parte do que queria alcançar, mas agora acho que tenho mais a criar, mais a oferecer. Se eu não tivesse esperança, qual sentido haveria em criar? Por que você ia querer criar algo para um mundo que vc definitivamente odeia? Mas tinha horas em que eu me perguntava se tinha valido à pena..."

Você se sentiu suicida?

[Longa pausa. Cinco, depois 10 segundos passam. Este é o único momento de silêncio de toda a entrevista e é quase doloroso. 15 segundos... 20 segundos...]

"Desculpa, eu só estava tentando contar quantas vezes me senti suicida."

Sério?

"[Pausa] Sim."

Por que vc se sentiu suicida?

"Talvez seja uma sensação de perda do controle do seu mundo..."

E aqui, Manson se detém; este claramente não é um lugar confortável para ele. Então, ele faz o que ele está acostumado a fazer: ele desvia a conversa -- inteiramente envolvente, com uma voz quase viciante -- mas tudo se relaciona a teorias e parentes, e não à vida real. Como isso...

"Todos têm um mundo diferente, tem um centro diferente para o universo de cada um. Eu sempre tentei manter um mundo onde não tivesse uma linha entre a imaginação e a vida real. A maioria das pessoas tem tudo planejado: vão para a escola, têm um emprego, morrem. Não acho que haja uma razão para seguir isso, eu quero agir mais como eu agia quando estava crescendo e essas coisas não tinham importância..."

Então, como isso se relaciona com suicídio?

"Quando eu sinto que meu mundo está ameaçado, quero me matar. Sem meu mundo, nada tem sentido algum."

Você quer, então, estar no controle o tempo todo?

"O controle é menos importante do que costumava ser pra mim. No mundo que criei, posso largar o controle."

Mas se esse é o seu mundo, voce está intrinsecamente no controle dele?

"Sim, claro, mas é como um caos controlado... Não gosto de pensar muito nisso... Não acho que estou contente, ou que cheguei ao fim do meu ciclo... Estar lançando uma coletânia não quer dizer que acabou."

Com isso, Marilyn Manson fecha o tópico de maneira mais deselegante que o normal -- mas não há mais nada a ser dito a respeito, hoje. Parte do motivo para isso é que esses sentimentos foram deixados para trás. O vídeo de (s)AIN'T foi um exorcismo da depressão monstruosa que ele sofreu no início do ano. A música, agora, voltou a ser seu primeiro amor, mas gravar vídeos e atuar estão logo atrás.

Ele diz não ter desejo nenhum de ser uma estrela de filmes, mas ainda quer atuar porque sente que precisa criar para se empurrar ainda mais à frente. Além disso, ele também alega que gosta de ver outra pessoa criar uma imagem dele.

Ao se levantar para sair, se ajeitando no paletó, algo curioso acontece. De repente, como se ele estivesse sendo desligado, qualquer traço de humanismo que ele houvesse exibido desaparece, e, mais uma vez, ele é Marilyn Manson -- estranho, assexuado, arrogante e encrenqueiro. Ele mal olha a sua volta; fica em pé como um rei entediado, aguardando ser levado para qualquer lugar onde possa fazer as coisas dele -- quaisquer sejam elas. E isso faz você pensar que foi enganado durante a última hora, que as palavras não estavam vindo de lugar algum perto do coração ou da cabeça dele, mas de algum computador dentro dele. Em segundos, ele se transforma em uma pessoa completamente diferente.

De repente, como se estivesse lendo a sua mente, diz:

"Eu fui ao www.schizophrenia.com", diz ele, para quase ninguém, "Dei uma olhada na página de auto-diagnóstico e respondi sim a todas as perguntas que lá estavam. Acho que sou esquizofrênico."

E ele sai do recinto, sem olhar para trás.