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Atirando
e rindo, dois alunos vestidos com capas pretas invadem escola secundária
do Colorado, matam pelo menos 13 pessoas e em seguida se suicidam
A sexta-feira 16, ganharam uns trocados numa pizzaria.
No sábado, dançaram na festa de formatura do segundo
grau. Na segunda, jogaram boliche. Na terça-feira passada,
finalmente, antes de se matar, fuzilaram 12 colegas e um professor
e feriram vários outros alunos, na pior carnificina já
registrada numa escola dos Estados Unidos.
Eric Harris, 18 anos, e Dylan Klebold, 17, eram aparentemente adolescentes
típicos de um subúrbio americano de classe média
alta. Moravam em casas confortáveis. O pai de Klebold é
geofísico, e a mãe, especialista em crianças
deficientes. Como Harris e seu comparsa conseguiram levar para a
Columbine High School, uma escola secundária pública
num subúrbio de Denver, Colorado, quatro armas pesadas e
dezenas de quilos de explosivos? Por que atiraram a esmo, rindo
de suas vítimas, enquanto explodiam quatro bombas, e depois
executaram com tiros na cabeça alguns dos melhores atletas
da escola? Queriam mesmo comemorar o aniversário de Adolf
Hitler, nascido há 110 anos, naquela terça 20 de abril?
Harris e Klebold deixaram uma nota, encontrada perto dos corpos:
"Não culpem mais ninguém por nossos atos. É
assim que queremos partir". Faltavam apenas 17 dias para o
fim do ano letivo. Com 1.965 alunos, Columbine é tão
boa que muitas famílias se mudaram para Littleton, perto
de Denver, com o objetivo de matricular os filhos na escola. Oitenta
e dois por cento de seus alunos são aceitos em universidades
- nos Estados Unidos não há vestibular, o que conta
é o desempenho do aluno no segundo grau. Columbine também
se orgulhava, até terça-feira, de não registrar
casos de violência. O policial de plantão se limitava
a multar alunos que estacionavam os carros nas vagas destinadas
a professores. Não há, como nas escolas de Nova York,
Los Angeles e Chicago, detectores de metais na entrada. Na festa
de formatura, os alunos costumavam aceitar o pedido dos pais para
vedar bebidas alcoólicas. Columbine era famosa por ser conservadora
e privilegiar os jogadores dos times de futebol americano, beisebol
e basquete. Foi esse o estopim da tragédia.
Harris e Klebold, ótimos alunos de boas famílias,
não eram populares na escola. Preferiam os computadores às
quadras de esporte. Solitários, encontraram sua turma numa
estranha gangue, a Máfia da Capa Preta. Vestiam-se de preto
da cabeça aos pés e não tiravam as longas capas
nem mesmo no calor do verão. Ridicularizados pelos atletas,
remoíam planos de vingança e extravasavam seu ódio
na Internet. Harris, principal cabeça por trás do
ataque, tinha uma website, agora desativada, no qual colecionava
suásticas e sinistros slogans neonazistas e até dava
receitas para a confecção de bombas. Em seu auto-retrato,
escreveu: "Mato aqueles de quem não gosto, jogo fora
o que não quero e destruo o que odeio". Já Klebold
dizia que seu número pessoal era "420", possivelmente
uma referência à data de nascimento de Hitler, 20 de
abril. Ninguém levava a dupla a sério, até
terça-feira passada. |
EUA
- A morte de capa preta |
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Depois
de assassinar 13 colegas de escola, dois adolescentes cometem suicídio
no Colorado
OSMAR FREITAS JR. – Nova York
Uma cena cruelmente comum: adolescentes americanos portando armamento
pesado entram na escola onde estudam e massacram colegas e professores.
Na manhã da terça-feira 20, em Littleton, um subúrbio
classe média de Denver, no Estado do Colorado, esta tragédia
se repetiria com recorde de baixas e arsenal. Dois rapazes, Eric
Harris e Dylan Klebold, 17 e 18 anos respectivamente, foram a Columbine
High School, onde cursavam o segundo grau, e durante cinco horas
provocaram uma tempestade de disparos e explosões. Munida
de duas carabinas de cano serrado, um rifle de assalto, pistolas
automáticas, e 30 bombas caseiras, a dupla feriu gravemente
23 pessoas e matou outras 13, para finalmente cometer suicídio.
As tropas da Swat e outras equipes de policiais chegaram como enxame
em pouco tempo, mas só conseguiram recolher as vítimas
e formar cordões de isolamento para impedir que multidões
de pais desesperados invadissem o local do crime em busca de seus
filhos. A maioria dos mortos ainda ficaria muito tempo no mesmo
lugar onde caíra, já que as autoridades tomavam precauções
especiais para entrar no prédio minado pelos assassinos.
Este seria o sétimo e mais mortal atentado do gênero
nos EUA desde outubro de 1997.
Eric e Dylan chegaram à escola como sempre: vestidos na moda
gótica – com roupas que lembram vampiros ou o cantor
Marilyn Mason – e cobertos com seus indefectíveis casacões
pretos. Aquele era uma espécie de unifome de uma turma auto-intitulada
The Trench Coat Mafia (algo como máfia da capa, numa referência
aos capotes longos de estilo militar). As diferenças nessa
terça-feira, estavam nas máscaras negras cobrindo
seus rostos, e dentro da bagagem que carregavam. Em vez de livros,
traziam bombas de fabricação caseira e armas automáticas.
Às 11h30 abriram caminho a tiros no hall da escola. "Ouvimos
uma explosão que vinha do primeiro andar", disse o estudante
Aron Cohn, 17 anos. O prédio tem dois andares e Cohn estava
com outros 20 colegas num anfiteatro onde se ensaiava um coral.
"Nem precisamos abrir a porta para saber o que estava acontecendo.
Nos fechamos dentro de um armário no teatro, fizemos barricadas
na porta, e ficamos rezando para que tudo acabasse", disse
o rapaz.
Alvos Os pistoleiros foram ao refeitório, onde estavam cerca
de 900 alunos, e iniciaram o massacre matando um professor. Mas
os principais alvos, sabe-se agora, eram minorias étnicas
e atletas. Os primeiros por causa das cores de suas peles –
a máfia do capotão era racista a ponto de promover
esta celebração a balas no 110º aniversário
do nascimento de Adolf Hitler, neste 20 de abril. Os segundos, porque
fazem parte dos grupos mais populares nas escolas do país
– principalmente os jogadores de futebol americano. Eis aí
o gatilho aparente que detonou a explosão de fúria
de Eric e Dylan. Eles eram considerados bocós e marginalizados
pelos colegas. A cada etapa do massacre os assassinos paravam e
minuciosamente minavam a área. Não escaparam sequer
os mortos: os cadáveres foram transformados em armadilhas
explosivas. Até a quinta-feira 22, a polícia encontraria
duas superbombas na cozinha da escola. Eram artefatos feitos com
minibujões de gás, pesando cerca de 15 quilos cada,
e com potencial para demolir o edifício. "Desde o início
suspeitamos que esta foi uma operação muito bem planejada
e que envolveu mais do que duas pessoas. Estamos investigando a
participação de outros", disse o xerife John
Stone. Sabe-se que a máfia da capa tinha cerca de 20 membros
fixos e pode ser que a gangue tenha ajudado nos preparativos.
Eric mantinha um site na Internet, onde colocava mensagens de ódio,
racismo, instruções sobre jogos eletrônicos
violentos e de satanismo. Mas a principal conexão entre estas
tragédias é a facilidade com que adolescentes desorientados
obtêm armas. Existem cerca de 250 milhões de armas
de fogo nas mãos de civis nos EUA. Não se sabe ainda
onde os garotos da Columbine High School conseguiram seu arsenal,
mas imagina-se que eram armas mantidas ilegalmente em suas residências.
Os garotos fabricaram os explosivos na garagem de casa. O que se
descobriu depois é que o pai de Eric, um militar da reserva,
também mantinha um site na Internet ensinando a fazer vários
modelos de bomba. Seu filho aprendeu direitinho suas lições
mortais.
Sinais trocados
Não foi por acaso que Diário de um adolescente (The
basketball diaries, EUA, 1995) tornou-se cultuado entre os jovens
americanos. Com Leonardo DiCaprio antes da fama, o filme é
dirigido por Scott Kalvert, um egresso da estética de clipes
da MTV, e a trilha sonora mistura The Doors, Pearl Jam e P.J. Harvey.
Diário é a saga de Jim (DiCaprio), promissor jogador
de basquete de um colégio de Nova York, que se vicia em heroína,
chafurda na deliquência e acaba na prostituição.
Para completar a aura cult, só que de um jeito mórbido,
uma cena teria influenciado a Máfia da Capa. É quando
Jim – vestindo uma capa negra – sonha que está
matando a tiros seu professor e colegas de classe. O filme de Kalvert,
na verdade, é um contundente alerta contra o vício,
mostrando nesta sequência, em especial, a degradação
de um drogado. Mas os estudantes assassinos não entenderam
nada. |
Atração
pela morte - O sinistro universo gótico serviu de inspiração
à Máfia da Capa Preta |
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A
auto-intitulada Máfia da Capa Preta, à qual pertenciam
os dois suspostos assassinos, cultuava alguns elementos da chamada
cultura gótica, uma espécie de paixão pelo
oculto misturada à atração pela morte, roupas
pretas e maquiagem pesada.
O roqueiro Marilyn Manson, aparentemente admirado pela Máfia,
é um representante da cultura gótica. Coincidentemente,
ele tinha um show marcado para a sexta-feira 30 em Denver, mas cancelou-o
a pedido do prefeito da cidade.
A banda preferida de Eric Harris e Dylan Klebold, os suspeitos da
carnificina, era a KMFDM, iniciais em alemão da frase "sem
piedade pela maioria". Uma das músicas do grupo afirma:
"Se eu tivesse uma escopeta, estourava minha cabeça
no inferno".
O filme Diário de um Adolescente, com Leonardo DiCaprio,
também foi lembrado a propósito do ataque na Columbine.
No filme, DiCaprio interpreta um jovem drogado de Nova York que
jogava basquete num colégio, nos anos 60, e que num de seus
delírios imaginava-se na sala de aula de sua escola vestido
com capa preta e matando tudo e todos a seu redor. Suspeita-se de
que os assassinos tenham se inspirado no filme quando decidiram
usar só trajes pretos.
Planejaram tudo. Não se sabe como conseguiram as armas -
duas escopetas, uma pistola semi-automática e um rifle de
assalto de 9mm -, mas com certeza acharam na Internet a receita
para fabricar as bombas. Um vizinho viu os dois, na segunda-feira,
véspera da fuzilaria, quebrando garrafas com um taco de beisebol.
Os cacos seriam usados como estilhaços nas bombas, e o vizinho
não desconfiou de nada. Harris escreveu num diário
os planos do ataque à escola. Um diagrama mostra como as
armas seriam escondidas sob as longas capas de couro preto. Num
exemplar do livro de formatura do colégio, Harris decidiu,
com palavras escritas sobre as fotos, quem ia morrer e quem seria
poupado: "Morto", "morrendo" e "salvo".
Os dois tinham antecedentes criminais. Em janeiro do ano passado,
foram presos depois de arrombar um carro e roubar equipamento eletrônico
avaliado em US$ 400. Condenados, tiveram de prestar 45 horas de
serviço comunitário e fazer um tratamento psicológico
destinado a pessoas que cometem infrações menores.
No mês passado, completaram com sucesso o programa de recuperação.
Até o final da semana pairava no ar a suspeita de que os
atiradores tinham contado com a ajuda de cúmplices no ataque.
Duvidando de que pudessem carregar sozinhos mais de 30 bombas para
dentro do colégio, a polícia investigava outros membros
da Máfia da Capa Preta. Entre a invasão da escola,
às 11h30 da manhã, e a descoberta dos corpos pela
polícia, às 4 da tarde, os cúmplices podem
ter deixado o prédio misturados à multidão
que conseguiu escapar. A equipe da SWAT ordenava que todos levassem
as mãos à cabeça, mas não tinha como
separar supostos atacantes de vítimas.
Trancados na biblioteca, Harris e Klebold cumpriam um ritual macabro,
executando um a um os colegas escondidos sob as mesas. Não
mostraram piedade. A uma estudante que implorou por sua vida, reagiram
com gargalhadas. Antes de matar o aluno negro Isaiah Shoels, que
se destacara em Columbine como esportista, anunciaram: "Agora
é sua vez, crioulo f.d.p." Isaiah foi encontrado com
uma bala na cabeça.
Centenas de alunos e professores, trancados nas salas, ouviam os
tiros e explosões sem saber o que estava acontecendo. Muitos
ligaram para casa pelos celulares, sussurrando, para pedir socorro.
Harris e Klebold acompanhavam tudo pela TV da biblioteca, vendo
a transmissão ao vivo do cerco à escola. No final,
depois de meia hora de silêncio, a SWAT invadiu a biblioteca
e encontrou os corpos dos dois cercados de outros, alguns irreconhecíveis.
O sangue era tanto que a polícia divulgou a estimativa de
25 mortos. Só no dia seguinte, desativadas todas as bombas,
pôde-se retirar e contar os corpos.
No ano letivo de 1997-98, houve 42 homicídios em escolas
americanas. O pior, até esta semana, aconteceu em março
de 1998, quando dois meninos de 11 e 13 anos mataram quatro colegas
e uma professora numa escola do Arkansas. Nos anos 80, as escolas
das grandes cidades, Nova York, Los Angeles e Chicago, eram campo
de batalha de gangues. Nos anos 90, a violência migrou para
subúrbios ricos e pequenas cidades rurais, e os matadores
passaram a ser meninos solitários e desequilibrados. "Eu
não tinha outra saída", explicou o adolescente
de 16 anos que em outubro de 1997, no Mississippi, matou a mãe
em casa e depois, na escola, fuzilou dois colegas e feriu sete.
O presidente Bill Clinton, numa reação típica
de muitos governos, criou uma comissão para estudar o aumento
da violência entre os jovens. No entanto, as medidas propostas
pareciam ter dado certo. No ano letivo de 1998-99, até Littleton,
o número de homicídios caíra a nove. As apreensões
de armas nas escolas subiram para 6 mil. Agora o governo espera
convencer o Congresso a aprovar leis que restrinjam o acesso dos
jovens às armas. Uma das medidas seria obrigar os pais a
guardar debaixo de chave suas pistolas e rifles. O lobby dos fabricantes
de armas, comandado pelo ator Charlton Heston, presidente da National
Rifle Association (NRA), lembra que a Constituição
americana garante o direito dos cidadãos a usar armas, tradição
que vem da Guerra de Independência. Por ironia, a NRA fará
sua reunião anual em Denver, em 1o de maio. Heston cortou
parte da festa, mas até quinta-feira 22 resistia ao pedido
do prefeito para cancelar a reunião em consideração
às famílias das vítimas. A assembléia
estadual do Colorado retirou um projeto de lei que permitiria o
porte de armas escondidas. "Se essa lei estivesse em vigor,
outros alunos e professores poderiam estar armados e teriam resistido
aos atacantes", disse Heston.
A escola Columbine, com centenas de furos de bala nas paredes e
crateras onde as bombas explodiram, vai ficar fechada até
a volta às aulas, em setembro. Os moradores de Littleton
iniciaram o longo processo de apoio às famílias das
vítimas e tratamento dos sobreviventes traumatizados. Mas
os Estados Unidos, a começar pelo próprio Clinton,
perguntam como impedir que o massacre se repita. Tudo o que escutam
é um país perplexo. |
Apenas
uma agulha no palheiro? (SHERYLGAYSTOLBERG) |
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As
balas ainda ricocheteavam na Columbine High School quando começaram
as acusações. As pistas haviam sido ignoradas: músicas
góticas, capas pretas, videogames nos quais a palavra combate
era escrita com K. Os xerifes não notaram os desvarios nos
sites da Web. Os psiquiatras não perceberam a raiva oculta.
Os pais não sabiam das bombas caseiras feitas com canos.
Se ao menos alguém tivesse percebido os sinais de advertência,
uma tragédia terrível poderia ter sido evitada.
Esse é um pensamento reconfortante para uma nação
amedrontada e pesarosa. Mas, visto pelo prisma da ciência,
isso não é necessariamente verdade.
De fato, se ainda resta alguma coisa a dizer sobre a recente tragédia
de Littleton, no Colorado, talvez seja isto: a fria e dura realidade
do massacre escolar mais trágico da história americana
é que o episódio foi o equivalente estatístico
a uma agulha no palheiro. Como eventos como aquele são tão
raros, e como é impossível eliminar os riscos da vida,
talvez não haja lições maiores a inferir nem
meios de prevenir a sua repetição.
Consideremos os números. O homicídio é a segunda
causa principal de morte entre os jovens. Mas, de acordo com os
Centros de Prevenção e Controle de Doenças,
menos de 1% dos homicídios infantis ocorrem nas escolas ou
nas suas imediações. Embora o número de disparos
de armas de fogo registrados em escolas, com múltiplas vítimas
- o tipo de incidente que atrai grande atenção da
mídia -, tenha aumentado, recentemente, da média de
dois para a média de cinco por ano, o total anual diminuiu.
"A realidade é que as escolas são um ambiente
muito seguro para as nossas crianças", disse o dr. Jim
Mercy, diretor-associado para Ciências da Divisão de
Prevenção de Violência dos Centros de Controle
e Prevenção de Doenças. "Seria muito difícil
prever ou identificar de antemão os tipos de crianças
e a constelação de fatores que tenderão a levar
a esse tipo de acontecimento." E acrescentou: "Eles são
tão raros, o número de escolares é tão
grande e nossa compreensão dos motivos que levam as pessoas
a ser violentas é tão vago que essa tarefa seria muito
difícil." Entretanto, existe o desejo de analisar, de
compreender, de prevenir. Após tragédias como a de
Littleton, onde dois adolescentes armados mataram 13 pessoas e depois
se suicidaram, sociólogos, psicólogos e peritos em
Direito Penal são interrogados pela mídia, na busca
coletiva das falhas da sociedade, mais ou menos como os investigadores
do setor de aviação procuram defeitos em lemes de
direção ou linhas de combustível rompidas após
um acidente de avião.
Mas os riscos não podem ser eliminados. Cirurgiões
exímios ainda matam pacientes. Furacões ainda destroem
cidades. "Muitas coisas acontecem por acaso no mundo",
observou o dr. John D. Graham, diretor do Centro de Análise
de Riscos da Escola de Saúde Pública da Universidade
de Harvard. "Para entender que não é possível
o risco `zero' é preciso compreender que muitas coisas não
são totalmente explicáveis." Essa afirmação
é verdadeira em relação aos acidentes de avião
e também em relação a disparos em escolas.
Na semana passada, quando procuradores-gerais estaduais se reuniram
em Jackson, no Mississippi, para uma conferência de dois dias
sobre violência juvenil, as autoridades de Littleton enviaram
uma mensagem tranqüilizadora: desde muito tempo antes elas
estavam em boa posição para prevenir o massacre de
Columbine. Seu condado já contava com um dos poucos centros
de avaliação juvenil do país. As crianças
recebem uma boa educação e cuidados de saúde.
E um dos jovens atiradores, Eric Harris, já estava recebendo
tratamento psiquiátrico.
Entretanto, 15 pessoas morreram. A maioria das pessoas interpretou
o episódio como um sinal inquietante de que um bom sistema
falhou. O dr. Arnold Barnett, professor de Estatística do
Instituto de Tecnologia de Massachusetts, afirma que pode significar
o contrário: um bom sistema funcionou.
"Esse caso poderia representar uma aberração",
disse Barnett. "Até medidas com alto índice de
sucesso, que em 99,9% dos casos evitam tragédias em potencial,
poderão falhar de vez em quando. As pessoas procuram sentidos
mais altos e tentam encontrar grandes falhas que poderiam ter causado
grandes tragédias como essa. Mas isso nem sempre funciona
dessa forma." Em vista da constatação de que
vasto número de crianças em idade escolar porta armas,
é surpreendente que esses tiroteios não ocorram com
maior freqüência. De acordo com os Centros de Controle
e Prevenção de Doenças, 5,9% dos l5 milhões
de alunos das escolas de segundo grau declararam ter portado uma
arma nos 30 dias que antecederam uma pesquisa recente. "Contudo",
ressaltou o dr. Jeffrey Fagan, diretor do Centro de Pesquisas e
Prevenção da Violência da Universidade de Colúmbia,
em Manhattan, "eles não disparam suas armas."
"Quando se começa a pensar em risco", ponderou
Fagan, " a conversa muda da guerra de cultura que está
sendo travada sobre vídeogames, supervisão paterna
e materna e a alienação dos subúrbios. Ela
muda para um enfoque mais prático, que nos diz: `Às
vezes, coisas ruins acontecem e nós nem sempre podemos explicá-las'."
Quando peritos em saúde pública examinam os riscos
a que os jovens estão sujeitos, os homicídios, que
representam14% do total de mortes entre crianças, vêm
em segundo lugar. A maior ameaça é representada por
acidentes, principalmente automobilísticos, que são
responsáveis por 42% das mortes de crianças. Segundo
o dr. Graham, de Harvard, o "arrebatamento emocional"
em relação a Littleton envolve um perigo: "Ele
desvia as energias dos grandes riscos que os adolescentes enfrentam,
que são o alcoolismo, acidentes de trânsito, sexo sem
proteção." Entretanto, as pessoas anseiam por
explicações e é inquietante pensar na possibilidade
de que nem tudo está sob seu controle.
"As pessoas têm necessidade de acreditar que vivem num
mundo justo, para seu próprio bem e sua sanidade", considerou
o dr. Melvin Lerner, professor de Psicologia aposentado da Universidade
de Waterloo, em Ontário. "Ao deparar com coisas obviamente
horríveis, passamos a procurar alguém a quem responsabilizar
por isso." As pessoas também procuram identificar padrões.
O massacre de Columbine foi o sexto tiroteio registrado em escolas,
com vítimas múltiplas, nos últimos 18 meses.
Se há aspectos comuns a esses casos, notou o dr. Fagan, consistem
no fato de que todos eles envolveram armas de fogo, doença
mental não diagnosticada e antigos ressentimentos dos atiradores.
"Nenhum desses três riscos, separadamente, produz um
acontecimento violento", ponderou. "É a sua convergência
e interação que o produz." Na última década,
o Centro de Controle de Doenças dedicou considerável
atenção à investigação da violência
como ameaça à saúde pública, tentando
examinar as tendências. Mas suas pesquisas só arranharam
a superfície, fornecendo informações sobre
"o que", "onde" e "quando" dos tiroteios
em escolas, mas quase nada se apurou sobre o "porquê".
Agora os cientistas sabem que, entre 1º de julho de 1992 e
30 de junho de 1994, dois terços das vítimas de tiroteios
em escolas foram os alunos; dentre as crianças mortas, 83%
eram meninos. As mortes ocorreram em 25 Estados, em comunidades
de todos os tamanhos. Menos de um terço dos disparos, 28%,
porém, ocorreram dentro de escolas. "O que não
conseguimos fazer", disse o dr. Mercy, do Centro de Controle
de Doenças, "é traçar um perfil psicológico
dos agressores, para analisar os pontos em comum."
Há uma história muito conhecida sobre o dr. John Snow,
médico de Londres que atribuiu a responsabilidade por um
surto de cólera a uma bomba que vertia água contaminada.
Ele removeu a alavanca da bomba. Seu gesto não limpou a água,
mas pôs fim à epidemia. Da mesma forma, observou o
dr. Alfred Blumstein, diretor do Consórcio Nacional de Pesquisas
sobre Violência da Universidade Carnegie Mellon, de Pittsburgh,
há um meio simples de lidar com os tiroteios nas escolas:
eliminar o acesso às armas. "As armas", enfatizou,
"transformam um comportamento amplamente difundido entre adolescentes
em tragédias." Também seria possível eliminar
os videogames, ou a Internet, ou fechar as escolas, ou internar
as crianças perturbadas. Mas isso simplesmente criaria outros
riscos, considera o dr. Graham, como o de crianças sem supervisão
ou vadias. Contudo, mesmo na ausência de soluções,
segundo o dr. Lerner, a busca ainda pode ser útil.
"Poder-se-ia argumentar", disse ele, "que essa é
a única resposta racional." |
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